O assédio moral e sua representação em ‘‘O Diabo veste Prada’’

by - sexta-feira, novembro 19, 2021

O Diabo Veste Prada (2006), inspirado na obra de Lauren Weisberger, é uma comédia dramática que conta a história da recém formada em jornalismo Andrea (“Andy”) Sachs (Anne Hathaway), que consegue o emprego dos sonhos (só não dos dela) na revista de moda RUNWAY que, como todos no filme afirmam, é o emprego que ‘‘um milhão de garotas matariam para ter”. A trama principal do filme, e nosso foco neste texto, gira em torno do relacionamento de Andy com a editora-chefe Miranda Priestly (Meryl Streep), a qual sustenta sequências de comportamentos inadequados não só com Andy, mas também com todos que compartilham o ambiente de trabalho. Os motivos essenciais para a escolha desse filme foram (1) o fácil acesso a cenas de assédio moral, (2) o comportamento dos funcionários que convivem com ambas as personagens e (3) a reação da personagem assediada no início, no meio e na conclusão da história. Além disso, é interessante a ideia de revisitar uma obra cinematográfica antiga como esta e poder identificar comportamentos que, vistos como encorajadores, são extremamente negativos.

O assédio moral no trabalho é caracterizado pela humilhação e perseguição de indivíduos de maneira recorrente por longo período de tempo, podendo ser iniciado por palavras, comportamentos e/ou gestos violentos (Trombetta e Zanelli, 2011). Situações assim costumam ocorrer no cotidiano de trabalho, de chefe para subordinado (descendente) em relações hierárquicas autoritárias, mas podendo também se manifestar entre colegas (horizontal) e, mais raramente, de subordinado para chefe (ascendente) (Brasil, 2010). Sendo este fenômeno, segundo Hirigoyen (2002 apud Trombetta e Zanelli, 2011), uma ação que procura afetar a dignidade e/ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, pode também ameaçar seu emprego ou o clima de trabalho. Quando iniciado por um chefe, é comum que o assédio moral seja reproduzido ou encoberto pelos colegas, devido ao medo de perderem o emprego e de também se tornarem vítimas, além do estímulo à

competitividade profissional (Brasil, 2010). Exemplos de comportamentos relacionados a esse problema incluem:

[...] amedronta[r] quanto à perda do emprego; [...] Sobrecarregar de tarefas ou impedir a continuidade do trabalho, negando informações; Desmoralizar publicamente; Rir, [...] direcionando os risos ao trabalhador; [...] Ignorar a presença do(a) trabalhador(a); Desviar da função ou retirar material necessário à execução da tarefa [...]; [...] Mandar executar tarefas acima ou abaixo do conhecimento do trabalhador [...]. (BRASIL, 2010, p. 21)[1].

Logo nos primeiros momentos de Andy como contratada na empresa, Emily (Emily Blunt), a primeira assistente de Miranda, a avisa de que aquele é um trabalho muito difícil para o qual ela seria completamente inadequada, e de que caso aquela fizesse algo errado, esta seria prejudicada. Segundo sua descrição, a primeira assistente é responsável por controlar a agenda, os compromissos e as despesas de Miranda, enquanto a segunda (Andy) deve buscar o café e realizar tarefas fora da empresa. Ambas devem atender o telefone toda vez que tocar, especialmente se a outra não estiver presente; Emily descreve uma situação em que uma antiga assistente precisou se ausentar por ter se cortado e, não tendo atendido ao telefone, teve sua carreira arruinada[2].

Durante o filme, Emily faz uma série de comentários hostis acerca de Andy e sua aparência, inclusive rindo dela com uma colega, o que constitui prática de assédio moral horizontal. No entanto, o que mais chama atenção nas interações entre as duas é que, na hostilidade de Emily, é constantemente evidenciado o medo de que Andy faça algo errado e, novamente, a primeira seja culpabilizada por uma contratação ruim. Ao mesmo tempo, também parece temer que Andy acerte e se torne a favorita de Miranda. Isso ocorre pois, ainda que Andy seja o alvo preferencial nos assédios de Miranda, Emily também é vítima deles, mas dialoga, ainda, com o que é trazido em Brasil (2010) sobre a conivência e/ou participação dos colegas no assédio moral iniciado por chefes.

Também, e principalmente, nas interações de Andy com Miranda o assédio moral é observado, dessa vez de forma descendente. A editora-chefe erra intencionalmente o nome da segunda assistente inúmeras vezes, chamando-a de “Emily” e, numa ocasião em que explica que seu nome é Andy[3], recebe como resposta uma expressão de insulto seguida de riso debochado e prosseguimento da fala sem qualquer pedido de desculpas. É interessante notar que apenas quando Miranda julga que Andy acertou algo no trabalho passa a usar seu nome corretamente[4], como se recompensando-a.

Hirigoyen (2002 apud Trombetta e Zanelli, 2011) traz que os procedimentos de assédio moral são mais ou menos os mesmos através de diferentes culturas pelo mundo, embora suas classificações mudem. São elencadas, a partir disso, situações para isolamento e recusa da comunicação direta da vítima, em que, sem alianças, diminuem-se suas possibilidades de autodefesa, desqualificação, deterioração proposital das condições de trabalho e violência verbal e física[5]. Estariam relacionados a esses fatores aspectos como insinuações, falta de repasse de informações, afastamento de reuniões, recusa em cumprimentar, falar ou olhar para a vítima, palavras subentendidas, ridicularização, calúnias, falas sobre o assediado como se este fosse um objeto ou não estivesse presente, suspiros irônicos, olhares agressivos, falas dissimuladas em brincadeiras ou piadas, críticas exageradas e injustas sobre o trabalho da vítima, tarefas acima ou abaixo de sua competência, indução ao erro etc.

As tarefas exigidas de Andy são muitas, passadas de maneira rápida, quase sempre sem chances de repetição (há uma cena em que, ao pedir para que Emily repita, tem a chamada imediatamente desligada[6]) ou explicação (é dito para nunca fazer perguntas a Miranda[7]). Ela não recebeu treinamento após sua contratação, e precisa ir aprendendo sozinha muito do que lhe é solicitado. Além disso, muitas solicitações são (quase) impossíveis, como a de conseguir um voo de Miami a Nova York em meio a uma tempestade[8], algo que depende de elementos fora de seu controle. Somado a isso, vemos Andy realizando tarefas que não dizem respeito à empresa, como produzindo a maquete de dever de casa das filhas de Miranda.

Percebe-se, portanto, que a realização do trabalho de Andy é constantemente dificultada: sobrecarregada, tem informações negadas, é solicitada a realizar tarefas acima de seu nível de conhecimento e competência ou que fogem de sua função etc. E, se não consegue realizar o solicitado, ainda recebe suspiros, olhares e outras expressões de desaprovação e de deboche, bem como críticas exageradas e injustas. Essas características, especialmente em grande ocorrência, são típicas do assédio moral e, como Trombetta e Zanelli (2011) colocam: “O chefe nega duplamente a competência de seu empregado, tanto na capacidade de realizar as tarefas de responsabilidade, quanto na capacidade de esforço para melhorar as suas atividades.” (p. 42-43).

De acordo com Trombetta e Zanelli, o assédio moral “ocorre em ambientes sociais permissíveis, em que esse tipo de situação e comportamento está caracterizado nos padrões morais da cultura e nos valores sociais do contexto” (p. 32). Dessa forma, existiriam limites para o uso do poder de um chefe em relação a um subordinado que, quando ultrapassados, poderiam caracterizar o assédio, sendo que a cultura do ambiente organizacional pode favorecer ou não a ocorrência dessas situações. Para Fleury, cultura organizacional é um

conjunto de valores e pressupostos básicos expresso em elementos simbólicos, que em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional, tanto agem como elemento de comunicação e consenso, como ocultam e instrumentalizam as relações de dominação. (1989, p. 22, grifo nosso).

Sendo assim, torna-se fundamental investigar possíveis influências desse âmbito sobre o comportamento dos membros da comunidade organizacional, já que, segundo Corrêa e Carrieri (2007 apud Leite, 2015), a organização é palco de disputas de poder e certas práticas de centralização de domínio e de autoritarismo por elas desenvolvidas podem recair em assédio moral. A cultura organizacional não só pode contribuir para o acontecimento de assédio em organizações, como também coopera para como a vítima vai ser tratada nestes ambientes diante dessas situações. No filme, por exemplo, o assédio sofrido por Andy representa uma humilhação crônica (Trombetta e Zanelli, 2011), que fez com que ela perdesse a sua identidade, camuflando esse processo em uma evolução pessoal e profissional. No entanto, o resto da empresa a vê como sortuda por estar em um cargo tão desejado e ingrata por, de início, reclamar.

Nesse sentido, quando vai desabafar com seu colega Nigel (Stanley Tucci)[9] sobre as reações de Miranda a seus acertos (que são ignorados) e erros (que a fazem ser cruel), recebe a resposta: "Então se demita. [...] Consigo outra garota para pegar seu trabalho em 5 minutos… Uma que realmente o queira. [...] Fale sério, você não está tentando, você está choramingando. [...] Ela [Miranda] está apenas fazendo o trabalho dela. [...][10] E você quer saber por que ela não te dá um beijo na testa e uma estrelinha dourada no seu dever de casa no fim do dia. Acorde, meu amor.” A partir desse momento, Andy, que antes afirmava que Miranda “não fica feliz a não ser que todos a sua volta estejam em pânico, enjoados ou com pensamentos suicidas”, é então convencida a se esforçar mais e resolve mudar todo o seu visual para adequar-se ao contexto de moda da empresa, o que também indica ter passado a acreditar que o que sofreu até ali foi normal ou sua culpa.

Conforme Andy passa a conseguir agradar Miranda com mais frequência, nota-se que Emily assume seu lugar (e vice-versa), sendo novamente a assistente encarregada de realizar tarefas fora da empresa (a vemos andando rápido na rua com várias sacolas)[11], enquanto Andrea é convidada a viajar a Paris com a revista no lugar de Emily, sendo tal viagem algo por que esta havia esperado muito. A editora-chefe exige que Andy comunique a Emily imediatamente, por telefone, que está lhe cederá sua viagem a Paris12, o que resulta no atropelamento da última. Dessa forma, percebe-se que a competitividade entre as assistentes era algo incentivado por Miranda, já que a segunda assistente é seu alvo preferencial de assédio moral, enquanto a primeira chega a conseguir alguns benefícios, podendo essas posições mudarem. Essa competitividade, por sua vez, é um dos componentes que levou Emily a também praticar assédio moral contra Andy.

Já se tratando das consequências do assédio moral, a vítima dessa violência tende a ter seu desempenho diminuído, mas, para além disso, pode passar a duvidar de seu próprio valor, dando razão ao assediador e assumindo responsabilidade pelas acusações que esse lhe faz. Tais efeitos geram repercussões em outros âmbitos de sua vida, como seus relacionamentos afetivos e familiares e sua saúde. (Trombetta e Zanelli, 2011). É comum o desenvolvimento de

estresse crônico (palpitações, falta de ar, fadiga, perturbações do sono e da fome, irritabilidade, dores de cabeça [...]), perturbação ansiosa generalizada, estado de apreensão e antecipação constantes, ruminações, estado de tensão e hipervigilância permanente, isolamento social e medo. Em alguns assediados, [...] úlceras gástricas, doenças cardiovasculares, de pele, emagrecimento, fraqueza, chegando até a desnutrição. [...] Alguns [...] sentem cansaço, [ficam] sem energia e passam a não mais conseguir pensar ou perdem a concentração em atividades banais. [...] podem ter ideias ou tentativa de suicídio. (ibidem, p. 37).

Assim, mencionando efeitos tanto para o assediado como para a organização, podem ocorrer agravos na saúde do trabalhador, queda na produtividade, acidentes de trabalho, alteração na qualidade do produto ou serviço, troca constante de funcionários, aumento de ações trabalhistas entre outras (Brasil, 2010). Inclusive, são observadas no filme uma situação de acidente de trabalho (atropelamento) e a alta rotatividade do cargo, que, segundo Emily, teve suas duas últimas assistentes demitidas em apenas algumas semanas e no qual a própria Andy não conseguiu permanecer por um ano completo.

Fonte: Link

No caso de Andy, em relação às consequências do assédio moral, percebe-se que seus relacionamentos pessoais foram negativamente afetados e ela manifestou perturbações da fome e emagrecimento, podendo estas últimas serem também consequências da cultura de magreza perpetuada pelo mundo da moda e pela própria RUNWAY. Contudo, é interessante pontuar que, embora Andy dê razão às pessoas da empresa e assuma responsabilidade pelas acusações que lhe foram feitas, não chega a duvidar de seu valor, demonstrando grandes recursos pessoais de resiliência e adaptabilidade. Talvez tais recursos pessoais tenham contribuído para que ela não se percebesse como uma vítima de assédio moral ou, então, não conhecesse tal conceito.

É possível perceber, ao final do filme, que apesar da palavra “diabo” em seu título, parecendo se referir à personagem Miranda, esta é retratada, no máximo, como um mal necessário. Suas violências para com colegas e funcionários são naturalizadas, afinal também tem um trabalho difícil, sua vida pessoal também não vai bem, e estaria apenas exigindo que todos dessem seu melhor. A própria Miranda afirma que ninguém mais conseguiria realizar seu trabalho em seu lugar, algo com que o filme parece concordar. A personagem Andy não deseja tornar-se como Miranda, mas isso, e também a associação com “diabo”, deve-se ao fato de Miranda admitidamente estar disposta a passar por cima das aspirações dos outros a fim de conseguir o que julga ser melhor para a revista. No entanto, nada disso impede que Andy continue admirando Miranda, a quem acena sorrindo na cena final, reforçando a noção de mal necessário.

Embora tenhamos trazido essa discussão, cabe apontar que tampouco pretendemos demonizar a personagem de Miranda Priestly. Ainda que tenha, repetidamente, atitudes condenáveis, está inserida em um contexto em que isso é naturalizado e talvez até incentivado, podendo não ter real consciência da dimensão do dano que pode advir de seus comportamentos. Além disso, não se pode deixar de observar que Miranda desenvolveu certo afeto por Andy, identificando-se com ela[12] e, mesmo após sua demissão inesperada, recomendando-a para o emprego que queria. Inclusive, sobre as escolhas que o filme faz, é importante considerar seu gênero de comédia e o ano de seu lançamento, que também influenciam como as situações foram abordadas. Sendo assim, o julgamento acerca do filme pode variar de acordo com a intenção do espectador ao vê-lo; para nós a experiência de reassistir ao filme foi desconfortável, principalmente pelo propósito de análise, porém, ao passo que escrevemos e relembramos das cenas, pôde-se extrair certa graça do conteúdo errôneo por se tratar de uma comédia meio trágica, especialmente devido ao roteiro.

Por fim, é importante que as organizações tomem as medidas necessárias para prevenir e combater o assédio moral entre seus colaboradores, conscientizando-os acerca desse fenômeno, fortalecendo suas relações interpessoais, melhorando as condições de trabalho e explicitando quais condutas são inaceitáveis e serão alvo de intervenção. Dessa maneira, poderão evitar situações semelhantes às do filme, dado que essa forma de assédio, infelizmente, permanece comum no cotidiano organizacional.

Este artigo foi pensado e escrito por Alana Bárbara Brito e Alana Mara Farias para o componente IPSA66 – Saúde Psicossocial e Trabalho (UFBA).

 

Fonte: Thomas Duke

Como citar

BÁRBARA, Alana; FARIAS, Alana Mara. O assédio moral e sua representação em ‘‘O Diabo veste Prada’’. Blog AMF, Salvador, 18 de nov. de 2021. Disponível em: https://www.alanamarafarias.com/2021/11/assedio-moral-em-o-diabo-veste-prata.html


Notas

[1] O trecho em questão se encontra em tópicos no material original, tendo sido aqui transformado em texto corrido em favor da fluidez da leitura.

[2] Mais especificamente, é dito que trabalha para o Guia de TV agora, com conotação extremamente negativa.

[3] Por volta dos 15:46.

[4] Por volta dos 45:14.

[5] A divisão também inclui a violência sexual, que não foi mencionada no texto para não confundir assédio moral e assédio sexual.

[6] A partir dos 18:25.

[7] 17:44.

[8] Por volta dos 29:05.

[9] Aos 32:11.

[10] Ele prossegue falando sobre grandes artistas que trabalharam lá e colocaram sua vida nisso e sobre como a RUNWAY não é apenas uma revista, mas fonte de esperança para muitas pessoas.

[11] Além disso, Miranda, que antes jogava sua bolsa e casaco sobre a mesa de Andy, passa a jogá-los na de Emily. 12 1:10:30.

[12] Como admite por volta de 1:37:00.


Referências

Brasil (2010). Assédio moral e sexual no trabalho. Brasília: MTE, ASCOM. Finerman, W. (Produção) & Frankel, D. (Direção). (2006). The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada) [DVD]. Estados Unidos da América: Fox 2000 Pictures.

Fleury, M. T. L. (1989). O Desvendar a Cultura de uma Organização - Uma Discussão Metodológica. Em M. T. L. Fleury e R. M. Fischer (coords.) Cultura e Poder nas Organizações, 1ª. Edição, 15-27. São Paulo: Atlas.

Leite, N. R. P. (2015). O assédio moral, à luz do filme ‘O Diabo Veste Prada’. [On-line]. Disponível: https://mundo-corporativo-e-cinema.webnode.com/news/proximo-filme-o-diabo-veste-prada-dia-29-04-2015/. Recuperado em 30 de outubro de 2021.

Trombetta, T. & Zanelli, J. C. (2011). O assédio moral no mundo do trabalho. In: ________. Características do assédio moral, 1ª Edição, 19-47. Curitiba: Juruá


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