Resenha: O que é lugar de fala? - Djamila Ribeiro

by - quarta-feira, janeiro 15, 2020


Olá, pessoas! Feliz 2020 para todos nós! O ano mal começou e eu já estou cheia de ideias para compartilhar. Estou de volta hoje para falar sobre um livro que foi um dos favoritos no ano de 2019: O que é lugar de fala? escrito pela Djamila Ribeiro. Não sei se vocês já leram, mas, se não fizeram, vou falar um pouquinho dele e garanto que vou te convencer a ler! Acompanha aqui.

Esse livro foi passado para mim como leitura para a produção de uma resenha acadêmica, então, aproveitando o embalo do meu texto, resolvi falar sobre ele aqui por ser um tema importante, atual e as vezes confuso em relação à definições. E aí, vamos começar?


Legenda: * = significa que o trecho é parte da minha resenha acadêmica.

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Foto: Uma Preta Afiada

Sinopse: 

‘‘Muito tem se falado ultimamente sobre o conceito de lugar de fala e muitas polêmicas acerca do tema têm surgido. Fazendo o questionamento de quem tem direito à voz numa sociedade que tem como norma a branquitude, masculinidade e heterossexualidade, o conceito se faz importante para desestabilizar as normas vigentes e trazer a importância de se pensar no rompimento de uma voz única com o objetivo de propiciar uma multiplicidade de vozes. Partindo de obras de feministas negras como Patricia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, o livro aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos explicando didaticamente o que é conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história.
(...)
Pensar outros lugares de fala passa pela importância de se trazer outras perspectivas que rompam com a história única.” (Amazon)


O que é Lugar de Fala? é o primeiro volume da Coleção Feminismos Plurais que, com o objetivo de reconhecer a importância e dar visibilidade à pluralidade de vozes de grupos marginalizados, a coleção visa a abordar aspectos e perspectivas dos mais diversos feminismos, de forma didática e acessível, em uma série de pequenos livros, tendo como pilar principal mulheres negras e indígenas e homens negros como sujeitos políticos. 
Dividido em quatro capítulos, o livro se apresenta da seguinte forma: 1. Um pouco de história; 2. Mulher negra: o outro do outro; 3. O que é lugar de fala?; 4. Todo mundo tem lugar de fala. Organizadora da coleção e autora do título de estreia, Djamila Ribeiro é mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora com ênfase em teoria feminista.

Quando comecei a ler o livro acha que logo de cara viriam as explicações e eu finalmente iria entender o que era realmente lugar de fala, algo que a internet toda falou o ano inteiro e eu evitava falar por não saber muito como funcionava; tinha medo de falar besteiras equivocadas. Bom, graças ao universo, Djamila Ribeiro dá uma aula sobre o feminismo negro, falando sobre o seu surgimento, contextualizações, vozes e autoras incríveis que sustentam tudo isso. Ela fala também do fato e dos motivos do feminismo negro, apesar de ter sido o primeiro a surgir, antes mesmo do próprio termo, ser ocultado/diminuído e tido como uma das vertentes do feminismo.

Antes desse livro eu nunca tinha lido nada concreto (livro, artigo, etc) sobre feminismo negro e durante a leitura desse capítulo, eu juro, parecia que a minha cabeça havia expandido de tanta informação importante e suplementar. Foi uma aula de história muito boa e didática haha.

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‘‘(...) Ao usar Sojouner Truth como primeiro exemplo, a autora explicita e afirma que, desde muito tempo, as mulheres negras vêm lutando para serem sujeitos políticos e produzindo discursos contra hegemônicos. Ainda no século XIX, com seu discurso E eu não sou uma mulher?, Truth já evidenciava um grande dilema que o feminismo hegemônico viria a enfrentar: a universalização das várias possibilidades de ser mulher levando em conta também outras intersecções, como raça, orientação sexual, identidade de gênero, que foi atribuído à terceira onda do feminismo com nomes como Judith Butler. A partir disso, Djamila Ribeiro aponta que o problema seria a falta de visibilidade para as vozes dessas histórias desde antes o período escravocrata, pois essa discussão já vem sendo debatida desde a primeira e segunda onda com autoras como bell hooks e Audre Lorde (...).’’  *


Algo que eu gostei bastante no livro também é o fato de que tudo é muito visível para quem está lendo. Ribeiro, ao passo que vai falando e contextualizando, sempre apresenta exemplos e estatísticas sociais, logo, você consegue absorver o que está exposto de uma forma didática e simplificada. Isso também dá um ar de aula, é bem prazeroso e instigante.


‘Segundo Ribeiro, para a filósofa francesa, a mulher foi constituída como o Outro, pois é vista como um objeto; se, para Simone de Beauvoir, a mulher é o Outro por não ter reciprocidade do olhar do homem, para Grada Kilomba, a mulher negra é o Outro do Outro, posição que dificulta mais essa reciprocidade, já que mulheres negras não são nem brancas e nem homens; a antítese de branquitude e masculinidade. (...) A partir dessa reflexão das diferenças raciais e de gênero juntas, Ribeiro questiona de quem as pessoas falam quando reivindicam a importância de se pensar políticas públicas para mulheres, pois, falar de mulheres como universais, não marcando as diferenças existentes, faz com que somente parte desse ser mulher seja visto. É explicito o desequilíbrio das políticas públicas em relação a mulheres negras e brancas na Lei Maria da Penha, por exemplo, que foi um avanço para a sociedade brasileira, porém essa política se adequou apenas às mulheres brancas, enquanto as mulheres negras não e que ‘‘Segundo o Mapa da Violência de 2015,21 aumentou em 54,8% o assassinato de mulheres negras ao passo que o de mulheres brancas diminuiu em 9,6%. ’’ (p.25).’ *

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Em ‘‘O que é lugar de fala?’’ é colocado em destaque a necessidade de retirar a invisibilidade dessas pautas e adicionar um olhar interseccional para fugir de analises simples e romper a universalidade que causa exclusão. Ribeiro afirma a urgência do deslocamento do pensamento hegemônico e a ressignificação das identidades para assim construir novos lugares de fala com o objetivo de dar voz e visibilidade aos sujeitos. E o feminismo negro é essencial para tudo isso por ser um ‘‘movimento político, intelectual e de construção teórica de mulheres negras que estão envolvidas no combate às desigualdades para promover uma mudança social de fato; não seriam mulheres preocupadas somente com as opressões que lhe atingem’’. (p.29)


Mas, e aí, o que é lufar de fala?


Eu ia falar mais, só que eu notei que já dei spoilers de mais do livro e acho que vocês vão internalizar e entender melhor lendo. Então, por último, apenas deixo esse trecho da minha resenha:

‘‘A redução da teoria do ponto de vista feminista e lugar de fala somente às vivências individuais, presenciada geralmente em debates virtuais, seria um grande erro, pois se trata de entendermos como as opressões estruturais impedem que indivíduos de certos grupos tenham direito à fala, à humanidade. Segundo Ribeiro, a experiência de um indivíduo importa, mas o foco é justamente tentar entender as condições sociais que constituem o grupo no qual este indivíduo está inserido e quais são as experiências que essa pessoa compartilha ainda como grupo. ’’ *

‘‘O que é lugar de fala? ’’ é uma obra incrível. A leitura é fluida e didática, de modo que qualquer pessoa, cumprindo o objetivo da coleção de livros, consiga aprender e refletir gradualmente e de forma prazerosa. Djamila Ribeiro consegue conduzir o leitor com total propriedade e intimidade pelo tema, capítulo após capítulo, principalmente ao trazer tantas vozes feministas para enriquecer o debate. Super recomendo o livro, foi uma experiência muito boa!

Eu espero do fundo do coração que vocês tenham gostado e que eu tenha instigado vocês a ler esse livro; vale muito a pena. Bom, é isso, não esqueçam de comentar, compartilhar. Beijão e até a próxima!

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