A paixão segundo G.H.? Não, a paixão segundo Janair. (Narrativa Literária - LETE45)

by - quinta-feira, outubro 10, 2019


Olá, pessoas! Estou de volta hoje e minha fala é direcionada para aqueles que já leram, nem que seja uma parte, A paixão segundo G.H. de renomada Clarice Lispector. Em uma das minhas aulas, meu professor solicitou a leitura de 3 capítulos dessa obra muito aclamada e, a partir dessa leitura + debates sobre a história e opiniões, foi dada a tarefa de construir uma narrativa literária no mesmo universo do livro. Porém, dessa vez a pessoa que deveria narra a história seria nossa amada e injustiçada JanairE aí, leitor? Você se lembra dela ou, assim como a G.H., nem lembrava do nome da mesma?

Brincadeiras à parte, foi exatamente nesse ponto em que as nossas discussões em sala rodaram: o esquecimento/apagamento de Janair nas falas daqueles que leram e falam do livro, na internet por exemplo. A não problematização das falas e pensamentos racistas que a personagem G.H. expunha. Ficou curioso? Procure no Google resenhas e comentários sobre a obra, poucas falaram desses pontos problemáticos.

Não estou querendo dizer que, por causa desses fatos da história, ela seja ruim ou que não deve ser lida. Muito pelo contrário, é um bom livro e tem que ser lido, mas também tem que ser questionado e debatido todos os seus aspectos, pois, a partir do mesmo, podemos abrir reflexões e discussões ótimas sobre a época que ele foi publicado, perspectivas da autora, a visão e opinião da sociedade que o leu, questões raciais e de classe e entre outras pautas interessantes. Vale a pena ler e reler esse livro para entender suas entrelinhas e, quem sabe, compara-lo com outras obras, como o artigo Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira de Lélia Gonzales (já fica a dica 😃)

Sinopse de A paixão segundo G.H.:
Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação. G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve: “Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável. ” (SARAIVA)

Bom, a minha narrativa é, basicamente, o ponto de vista de Janair nos 6 meses em que ela ficou na casa de G.H. como empregada; talvez alguns acontecimentos do meu texto sejam spoilers de partes do livro (aviso para quem não leu ainda). Detalhe legal: usei imagens para ilustrar os personagens ou uma situação específica. Espero que gostem, beijão e até a próxima! 💟

X

Invisível. Ainda queria entender como eu, negra desse jeito, fui apagada dessa forma. Entretanto, o impossível tornou-se possível e foi exatamente isso que eu me tornei durante os seis meses em que trabalhei naquele espaço, que queria representar uma casa, um lar e falhou, pois, ao mesmo tempo em que a cobertura levava para as alturas, trazia também o vazio que lá habitava. Em primeiro momento, achei que seria bom ter conseguido aquele emprego, visto que o mesmo era suficiente no momento, mas, desde o primeiro dia, eu me sentia (poderia usar o verbo via ou enxergava, contudo, como eu disse, eu era invisível, quase não existia) como uma intrusa naquele ambiente.



Durante os primeiros dias, por ser algo recente, refletia, eu era apenas a ‘empregada’. Nunca Janair. ‘‘Vai ver a antiga empregada era chamada assim, ou preferia. Costumes, certo? ’’ Eu sempre pensava, mas, claro, nunca questionei G.H. até por que não poderia de jeito nenhum arriscar meu serviço. Os dias passaram e junto com eles eu fiquei acostumada com esse nome que me foi dado, até o ouvia ecoar pela cobertura, mesmo quando ela não falava ou gritava. Bom, pelo menos ela era educada na maioria das vezes, como não ser? Boa classe, boa vida, bom estudo, boa família. Tem tudo para ser uma ótima pessoa. As vezes faltava um tom de voz mais amigável, um ‘‘obrigada’’, um ‘‘ por favor’’ ou um mínimo ‘‘bom dia’’, mesmo quando eu a cumprimentava, mas acontece com qualquer um, provavelmente era apenas o cansaço do árduo trabalho e algumas horas sem sono, normal.



Um mês se foi e eu estava mais uma vez no quarto em que ficava, dessa vez me ajeitando para dormir enquanto eu sentia e ouvia o silencio da madrugada. G.H. havia convidado umas pessoas para uma pequena reunião em sua casa, o dia havia sido longo, cheio de risadas e de conversas bem animadas. Eles pareciam empolgados conversando, comendo e bebendo, acho que por isso nem repararam em mim direito, apesar de eu ser um ponto preto em meio à neve, o assunto e suas distrações próprias sobressaíram bem mais que eu servindo todos eles. Paciência. Não estou aqui para rir ou conversar, como ouvira uma outra vez de uma antiga patroa. Sem distrações, apenas trabalho. Pessoas contavam comigo, aquelas que realmente me enxergavam. Minha família e meu futuro (esse eu sonhava e precisava que ele me enxergasse, pois eu trabalhava muito para isso).

Já faziam dois meses que eu estava nesse lugar e o desconforto não poderia ser maior (na verdade, eu nem deveria pensar isso, vai que piora). Essa casa parecia se tornar cada vez maior e vazia, eu me sentia sozinha. Então, certa noite quando eu estava deitada em ‘‘minha cama’’ decidi que iria pensar em algo que fizesse aquele pequeno cômodo ser mais meu, parecer mais vivo, fazer com que ele realmente existisse, assim como eu deveria ser naquele lugar. Eu sempre apreciei artes em geral, adorava desenhar e tinha até um caderno próprio com desenhos que eu fazia em momentos de inspiração ou apenas para me distrair. A partir disso tive a brilhante ideia de desenhar na parede do quarto. Ri sozinha imaginando como ficaria e se aquilo me traria problemas. Mas acho que não, ela nunca nem chegava perto dessa parte da casa, muito menos entrava aqui. Talvez, assim como eu, esse quarto seja invisível. E eu espero que continue assim, não quero me meter em encrencas.

Depois de muito pensar no que eu iria desenhar, resolvi começar tentando fazer o meu fiel companheiro: Cadu, meu cachorro que havia ficado com a minha família. Eu sentia falta da companhia dele, quem sabe o desenhando esse local fique mais aconchegante e diminua a saudade de casa. Bom, a intenção foi ótima, mas eu acho que meus desenhos ficam melhores no papel ao invés dessas enormes paredes. Mais uma vez ri sozinha e pensei ‘‘Pelo menos temos aqui uma memória engraçada e, em parte, foi divertido’’. Uma distração fazia bem para qualquer um.

No terceiro mês, eu meio que já estava acostumada em não existir. Falava apenas quando me perguntavam ou cumprimentavam, o que não acontecia muito, então eu era quase muda. Em compensação, o meu pequeno quarto tornou-se um refúgio onde eu podia ser eu, colocar uma música no radinho, ler meus livros ou simplesmente olhar as estrelas pela janela que, diga-se de passagem, tinha uma vista muito linda. Hoje, diferentes dos outros dias, era uma data especial: meu aniversário. Então, resolvi sair de noite para quem sabe arrumar uma diversão a mais. Assim que terminei meus afazeres e a noite chegou, quando G.H. estava indo dormir, eu a informei que iria sair, visto que a mesma não precisaria mais de mim. Ela apenas me disse para não volta tarde, logo eu concordei, agradeci e sai feliz para me arrumar.


Naquela noite eu não fui muito longe de ‘‘casa’’, fiquei pela praia que tem lá por perto, encontrei algumas pessoas, conversei um pouco, me dei ao luxo de comer coisas gostosas que não sentia o gosto há muito tempo e apreciei a vista marítima que estava a minha frente. Por um instante minha atenção foi tirada do mar e voltou-se para um casal que por ali passeava. Eles estavam felizes, rindo, conversando, aproveitando um ao outro. Acho que nem se eles quisessem, conseguiriam ser invisíveis, o brilho deles não permitiria. Não os conhecia, porém estava feliz por eles. Voltei para meu quartinho pensando em como a noite tinha sido boa. Foi aí que eu tive a ideia: iria desenhar o casal na parede. ‘‘Mas por que, Janair? ’’ Eu queria memorizar aquela felicidade, aquele brilho, ser daquele jeito. Toda manhã eu veria aquele desenho e isso me lembraria que no futuro eu teria aquele brilho, não seria mais invisível.

Mais uma vez meus dons artísticos não foram muito bem aceitos pela parede, nem o carvão cooperava com os traços, porém, repito, o que importa é a lembrança e o objetivo por trás daquelas figuras e as risadas que eu dei produzindo-as.

O quarto mês chegou e as coisas continuavam iguais. Eu acordava, fazia o que tinha que fazer, obedecia ao que tinha que obedecer e assim o dia seguia. Perto de anoitecer, G.H. saiu e quando voltou já era tarde, mas ela estava com alguém. Fiquei rezando para que ela não e chamasse para fazer nada, eu tinha me preparado para dormir fazia pouco tempo. Porém nenhum ‘‘EMPREGADA’’ foi escutado.

O ser humano tem algumas necessidades que sempre aparecem em momento que não deveriam acontecer. Nessa noite eu fui amaldiçoada com essas necessidades: eu precisava urgentemente ir ao banheiro; despertei do meu sono apenas para isso e já faziam 30 min que eu tentava esquecer isso e dormir, mas estava quase impossível. Cansei de resistir e fui, de pontinha de pé em pontinha de pé. Quando cheguei na sala tomei um susto: G.H. e a pessoa desconhecida estavam dormindo abraçados no sofá cobertos apenas por uma manta. Minha respiração ficou presa, logo apressei meus pequenos passos e segui para o banheiro tentando não fazer barulho. Na volta, tive o mesmo cuidado, mas, quando cheguei na sala suei frio. G.H. estava de olhos abertos me encarando. Ficamos uns segundos, que pareciam eternidade, nos encarando, mas logo acordei do transe e segui rapidamente para meu quarto. Meu sono foi atormentado por pesadelos. ‘‘Será que eu perdi meu emprego? ’’

O quinto mês chegou e o pensamento de que meus dias naquele lugar estavam contados também. Depois daquele ocorrido, na manhã seguinte G.H. resolveu inovar o seu vocabulário comigo apenas para falar em bom e alto som: ‘‘Não quero você perambulando pela minha casa tarde da noite, já basta ela manhã’’. Não tinha o que falar, eu apenas concordei e me desculpei (por precisar ir ao banheiro, que crime!). O cotidiano continuou o mesmo, as horas se arrastavam e ao final do dia eu podia finalmente voltar para o meu refúgio. E, se tivesse sorte de terminar meus afazeres mais rápido que o normal, eu tinha o privilégio de assistir o lindo finalzinho do pôr-do-sol que pintava meu quarto de laranja. Apenas aquilo melhorava infinitamente o meu dia.

Sexto e último mês. Depois dessa previsão, acho que irei trabalhar como cartomante (rindo para não chorar). Bom, eu não recebi respostas claras quando questionei o porquê da demissão, mas acho que esses meses responderam a minha pergunta: eu não era bem-vinda. Contudo não me importei, sentimentalmente falando, eu fiz minha parte e agora seguirei com minha vida. A minha única preocupação era o dinheiro que me restara, eu precisava descobrir como iria me cuidar e ajudar a minha família daqui para frente.


Antes de ir embora, arrumei meu cantinho inteiro com o maior prazer, aquele quarto tornou-se algo especial e eu espero que a próxima pessoa que ficar aqui cuide dele e tenha bons momentos também. Agora era hora de voltar para casa ou então ficar, caso eu consiga um outro emprego com muita sorte; não são tempos fáceis, ainda mais para mim. Mas temos que ter fé, certo? A vida é uma surpresa e meu futuro me aguarda ansiosamente.

J.

 








Obs: as imagens usadas nessa postagem são obras de Sacrée Frangine

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