A Colonização sob o olhar dos textos dos Estudos das Humanidades (HACA03 — UFBA)

by - quarta-feira, agosto 28, 2019

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Desde os primórdios da humanidade, as pessoas se desenvolvem estabelecendo relações de poder entre si, a mesma forma-se no momento em que alguém deseja algo que depende da vontade do outro. A colonização foi um método de formar essas relações e, já que, a palavra colonização resulta do verbo latino colo que significa eu moro, eu ocupo a terra, eu trabalho, eu cultivo o campo (Dialética da Colonização, 2013, pág 11), esse ato pode ser definido em dois processos ‘‘o que se atém ao simples povoamento’’ e ‘‘o que conduz à exploração do solo’’ (Dialética da Colonização, 2013, pág 11–12). No caso do Brasil, por exemplo, a colonização era predominantemente exploradora, pois os portugueses vieram para o país com o intuito de extrair recursos naturais e minerais, tendo em vista apenas interesses econômicos e lucrativos através do começo das Grandes Navegações (XV-XVII).

Quando os colonus chegaram no Novo Mundo eles depararam-se com os incola, ou seja, os nativos residentes da terra. Entretanto, é importante destacar que existia uma grande disparidade entre as reações diante desse encontro, como é exposto nos trechos a seguir:
os índios eram animais, os segundos contentavam-se em suspeitar que os primeiros fossem deuses. Em nível idêntico de ignorância, o último procedimento era, com certeza, mais digno de homens. ’’ - Lévi-Strauss
(SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano, 2000, p.12)
‘‘(…) uma complexa representação dos distintos grupos de índios (o seu reconhecimento foi precoce), em que os traços mais perturbadores (canibalismo, poligamia, nudez) se misturaram com a sensação de uma inferioridade cultural absoluta (incapacidade de ler e de escrever, falta de organização política e social, mas sobretudo de culto divino e, por isso, de vocabulário religioso adequado a transmitir os rudimentos do cristianismo’’
(MARCOCCI, Giuseppe. A Consciência de um Império: Portugal e o seu mundo — Sécs. XV-XVII, 2012, p.431)
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Ao comparar esses dois trechos, é evidente que, apesar dos dois grupos sociais terem a mesma ‘‘ignorância’’ equivocada, os povos nativos, repletos de ingenuidade, ainda assim podem ser vistos como mais dignos, pois os nativos receberam os portugueses como Deuses e os colonizadores os enxergavam como inimigos, animais e seres inferiores. Essa conclusão precoce e superficial desencadeou questionamentos sobre a natureza daquela nova humanidade e dúvidas em relação a existência de alma nos nativos (A Consciência de um Império, 2012, p.431), o que foi mais um pretexto para desumanizar aquelas pessoas. Apesar disso, sabemos que as culturas e os costumes indígenas não eram como os colonizadores interpretavam e a alma deles estava intrinsecamente ligado a esses aspectos peculiares. O documentário ‘‘O Povo Brasileiro’’, baseado no livro de Darcy Ribeiro, mostra que os nativos acreditavam na divindade em todas as coisas, na força dos antepassados, possuíam um idioma bastante sofisticado, uma crença politeísta, eram profundos conhecedores da fauna e da flora da região e eram donos de saberes sofisticados sobre o uso de cada planta, seu poder nutritivo, de cura ou de morte. Toda essa cultura e sabedoria eram passadas de geração para geração, até, chegar em nós atualmente, o que explica muitos costumes dos brasileiros, como por exemplo, o uso caseiro de plantas.

Mesmo presenciando toda essa profunda e rica cultura, os colonizadores interpretaram como algo inferior a si e começaram a explorar meios para ‘‘civilizar’’ esse povo e para poderem usar dessas pessoas ao seu favor. Um desses processos foi o batismo realizado pelos jesuítas que, segundo Giuseppe Marcocci em A Consciência de um Império (2012, p.435), reestruturavam todo o cotidiano dos nativos e, além da jornada de trabalho, teriam agora um foco maior nos deveres religiosos, sendo assim, aculturados por um padrão tido como superior (Dialética da Colonização, 2013, pág 17). Esse processo de entrada na vida cristã foi exposto no filme ‘‘A Missão’’ (1986) que mostra em suas cenas a trajetória dos jesuítas em sua missão religiosa no Novo Mundo.

Todavia, além do batismo ser forçado, era também uma forma de negar práticas culturais, logo, segundo Giuseppe Marcocci em A Consciência de um Império (2012, p.431), era normal muitos índios possuírem ‘‘uma visão radicalmente negativa do baptismo’’ o que dificultava ainda mais o processo de dominação, visto que os nativos possuíam apenas três destinos: ou perder seus costumes e crenças para uma nova cultura, em nome de Deus; ou serem escravizados como animais selvagens; ou serem exterminados pelos colonizadores.

Além do batismo, consequentemente, a aconteceu a perda parcial do código linguístico nativo. Esse outro método de dominação era promovido e estimulado a partir da troca consecutiva da língua nativa pelo português nas representações religiosas e nas peças teatrais (O entre-lugar do discurso latino-americano, 2000, p.14). Dessa forma, com a junção do código religioso e do código linguístico europeu, os nativos perdiam dois aspectos muito importantes de sua cultura, já que, segundo Silviano Santiago em ``O entre-lugar do discurso latino-americano`` (2000, p.14), evitar o bilinguismo, gerava o não pluralismo religioso e significava impor o poder do colonizador.

Em decorrência a esses mecanismos de colonização e sua interferência nos povos que aqui existiam, o Brasil sofreu diversas leituras em relação à sua sociedade, uma das mais famosas é a de Sérgio Buarque de Holanda no texto Homem Cordial do seu livro ``Raízes do Brasil`` (2004). Segundo Buarque, o brasileiro tem em si o homem cordial, reprodutor das virtudes tão elogiadas por estrangeiros, como hospitalidade e generosidade que representam “um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece viva e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano” (pág 146). Entretanto, sabemos que não se trata de simples gestos de bondade, já que, além de ser uma característica patriarcal de uma parcela especifica da população da época, a nossa forma de socializar no cotidiano ‘’é justamente o contrário da polidez’’ (pág 147), pois a atitude polida significa um disfarce para a preservação das emoções. A descrição de cordialidade feita por Holanda faz o brasileiro ser a pessoa que deseja estabelecer intimidade e, ao mesmo tempo, ter aversão ao formalismo social.

Na prática, isto faz as relações familiares serem modelo em qualquer situação social e, consequentemente em geral, os indivíduos não conseguem compreender a distinção entre os termos público e privado, principalmente entre o Estado e a família.

Apesar dessa confusão de identidade, é interessante refletir que, ao escrever esse texto, Holanda não estava no Brasil, logo, assim como muitos estrangeiros, possuía uma visão limitada do país, mesmo sendo brasileiro. Por conseguinte, podemos fazer uma comparação ao texto de João-Francisco Duarte ‘‘O que é Realidade? ’’ (1994), onde o mesmo fala sobre o conceito de realidade e, ao dar muitos exemplos do cotidiano, conclui que existem realidades diferentes a partir de perspectivas distintas: ‘‘ O mundo se apresenta com uma nova face cada vez que mudamos a nossa perspectiva sobre ele’’. (pág 11). Isso adapta-se facilmente ao contexto dos estrangeiros, que, muitas vezes, conhecem superficialmente o Brasil, e ao de Sergio Buarque de Holanda, que escreveu seu livro quando estava estudando na Alemanha. Ambos possuem perspectivas diferentes e, logo, uma realidade diferente e idealizada do país, como foi exposto no documentário Olhar Estrangeiro, que mostra a desmistificação dos clichês sobre o Brasil.

Em conclusão, ao meu ver, possuímos essa confusão em distinguir a nossa sociedade e seus comportamentos justamente por causa das perspectivas diferentes estabelecidas em relação ao país, já que, estamos sempre nos olhando e interpretando baseado no olhar do outro sobre nós.

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